A RELAÇÃO DO TARÔ DE MARSELHA COM OS TARÔS SURREALISTAS E MITOLÓGICOS

Por José Roberval
A relação entre o Tarô de Marselha e os tarôs surrealistas e mitológicos é de continuidade simbólica. Em outras palavras, os tarôs mais modernos não abandonam a estrutura do Marselha; eles a reinterpretam por meio de novas linguagens visuais, filosóficas e culturais.
O Tarô de Marselha como matriz
O Tarô de Marselha, consolidado entre os séculos XVII e XVIII, é considerado uma das principais matrizes do tarô ocidental. Seus 22 Arcanos Maiores apresentam figuras simbólicas relativamente simples, abertas a múltiplas interpretações.
Essas imagens permitem leituras em diferentes níveis:
* psicológico;
* filosófico;
* espiritual;
* iniciático;
* divinatório.
Por essa razão, ele serviu de inspiração para praticamente todos os baralhos que surgiram depois.
Os tarôs surrealistas
Os tarôs surrealistas mantêm, em geral, a sequência dos Arcanos Maiores e seus significados essenciais, mas substituem a estética medieval por imagens inspiradas no Surrealismo.
Assim, o Louco continua representando a liberdade e o início da jornada, porém pode aparecer em cenários oníricos, com figuras impossíveis ou símbolos do inconsciente. A Torre continua indicando ruptura, mas a destruição é retratada de forma mais psicológica do que material.
Nesses baralhos, há forte influência de pensadores como Carl Gustav Jung e da arte surrealista, enfatizando:
* sonhos;
* imaginação;
* inconsciente;
* paradoxos;
* transformação interior.
Os tarôs mitológicos
Os tarôs mitológicos fazem outra releitura: substituem personagens medievais por deuses, heróis e narrativas da mitologia, especialmente a grega.
Por exemplo:
* O Imperador pode ser associado a Zeus.
* A Imperatriz pode ser relacionada a Deméter ou Hera, dependendo do baralho.
* A Sacerdotisa frequentemente é ligada a Perséfone, Atena ou Hécate.
* A Morte pode aparecer como Hades ou representar o ciclo de Perséfone.
Nesse caso, cada arcano é compreendido também por meio dos mitos, enriquecendo a interpretação sem alterar sua essência simbólica.
O que permanece igual?
Independentemente do estilo artístico, permanece a chamada “espinha dorsal” do tarô:
* a sequência dos 22 Arcanos Maiores;
* a Jornada do Louco como caminho de desenvolvimento humano;
* os arquétipos universais;
* os quatro naipes dos Arcanos Menores (na maioria dos baralhos).
O que muda é a linguagem visual utilizada para expressar esses arquétipos.
Uma perspectiva psicológica e simbólica
Sob uma ótica junguiana, o Marselha, os tarôs surrealistas e os mitológicos falam da mesma realidade psíquica: os arquétipos do inconsciente coletivo. Cada baralho utiliza imagens diferentes para despertar as mesmas estruturas profundas da experiência humana.
Sob uma perspectiva esotérica, todos são considerados diferentes “vestimentas” para uma mesma tradição simbólica. O símbolo muda de aparência, mas continua apontando para princípios como transformação, equilíbrio, escolha, iniciação e autoconhecimento.
Por isso, muitos estudiosos afirmam que o Tarô de Marselha é como uma língua-mãe: os tarôs surrealistas, mitológicos e diversos outros “dialetos” preservam sua gramática simbólica, adaptando-a a novas sensibilidades artísticas, culturais e espirituais. Essa diversidade amplia as possibilidades de interpretação sem romper, necessariamente, com a tradição original.
José Roberval
Oraculista, especializado em Taromancia,
Cartomancia, Oráculo de Ifá e Numerologia.
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